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A demanda por saúde mental cresceu — e os profissionais da saúde estão adoecendo.

  • Foto do escritor: Elisa Teixeira
    Elisa Teixeira
  • 30 de mar.
  • 5 min de leitura















Nos últimos anos, a saúde mental tornou-se um tema cada vez mais presente no debate público. A pandemia de Covid-19 intensificou um movimento que já vinha em crescimento: mais pessoas passaram a reconhecer o sofrimento psíquico e buscar atendimento psicológico.


Ansiedade, depressão, burnout e dificuldades nas relações aparecem com frequência crescente nos consultórios. Esse aumento da demanda por atendimento psicológico representa um avanço importante na cultura contemporânea, indicando maior reconhecimento da importância do cuidado com a saúde mental.


No entanto, há um aspecto menos discutido desse fenômeno: o impacto do aumento da demanda sobre os próprios profissionais da saúde.


Psicólogos, médicos, enfermeiros e outros trabalhadores da área estão entre os grupos profissionais com maiores índices de estresse ocupacional e esgotamento emocional. Em outras palavras, quem cuida da saúde mental da sociedade também enfrenta um risco significativo de adoecimento psíquico.


O aumento da demanda por saúde mental

Diversos estudos internacionais apontam que a procura por atendimento psicológico e psiquiátrico aumentou significativamente nos últimos anos, especialmente após a pandemia.

Esse aumento está associado a fatores como:

  • maior prevalência de ansiedade e depressão

  • impactos psicológicos do isolamento social

  • insegurança econômica

  • experiências de luto coletivo

  • maior conscientização sobre saúde mental


Se por um lado esse movimento ampliou o acesso ao cuidado psicológico, por outro ele também intensificou a pressão sobre os sistemas de saúde e sobre os profissionais que atuam na linha de frente da escuta clínica.


Burnout e sofrimento psíquico entre profissionais da saúde

O fenômeno mais frequentemente associado ao adoecimento desses profissionais é a síndrome de burnout, definida pela Organização Mundial da Saúde como um fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi gerido adequadamente.


O burnout é caracterizado por três dimensões principais:

  1. exaustão emocional

  2. despersonalização ou distanciamento afetivo do trabalho

  3. redução da sensação de eficácia profissional


A literatura científica tem mostrado prevalências elevadas dessa síndrome entre trabalhadores da saúde.


Uma revisão da literatura sobre profissionais da área da saúde no contexto pós-pandemia encontrou taxas de burnout variando entre 42% e 61%, associadas principalmente à sobrecarga de trabalho, ansiedade e exposição contínua ao sofrimento humano.


Em alguns estudos hospitalares, mais da metade dos profissionais avaliados apresentaram critérios compatíveis com burnout, com prevalência estimada em 54,7% entre trabalhadores da saúde.


Além disso, pesquisas indicam que mais da metade dos profissionais da saúde relatam exaustão emocional significativa, uma das dimensões centrais da síndrome.

Esses dados indicam que o adoecimento psíquico entre profissionais da saúde não é um fenômeno isolado, mas um problema estrutural crescente nos sistemas de cuidado.


O desgaste específico dos profissionais de saúde mental

Entre os trabalhadores da saúde, os profissionais da área da saúde mental apresentam fatores adicionais de risco.


Psicólogos, psiquiatras e psicoterapeutas trabalham diretamente com a escuta do sofrimento humano. Esse tipo de atividade envolve não apenas competências técnicas, mas também um intenso trabalho emocional.


Estudos internacionais apontam que:

  • entre 21% e 67% dos profissionais de saúde mental apresentam níveis elevados de burnout

  • cerca de 40% relatam exaustão emocional significativa

  • mais de 50% dos psicoterapeutas relatam sintomas de esgotamento ao longo da carreira


Pesquisas recentes também indicam que aproximadamente 45% dos psicólogos relatam sintomas de burnout, enquanto cerca de metade dos profissionais de saúde mental relatam níveis moderados ou altos de fadiga por compaixão.


Esse fenômeno é frequentemente associado ao que a literatura denomina fadiga por compaixão ou traumatização vicária, que ocorre quando o profissional é repetidamente exposto às narrativas de sofrimento, trauma e violência de seus pacientes.


Na clínica psicológica, isso pode se traduzir em um desgaste progressivo da capacidade de escuta e de implicação emocional no trabalho.


O paradoxo contemporâneo da saúde mental

Esse cenário revela um paradoxo importante.

Nunca se falou tanto sobre saúde mental.

Ao mesmo tempo, os profissionais responsáveis por sustentar esse cuidado estão cada vez mais sobrecarregados.


A clínica psicológica exige uma forma de presença muito específica: o profissional precisa sustentar uma escuta atenta, aberta e implicada diante do sofrimento do outro.


Isso significa lidar diariamente com:

  • relatos de trauma

  • experiências de luto

  • conflitos familiares intensos

  • crises existenciais

  • sofrimento psíquico profundo


Esse trabalho exige recursos psíquicos importantes. Quando realizado de forma isolada ou sob condições de trabalho precárias, pode levar ao esgotamento.


A importância da supervisão e da sustentação da prática clínica

Na formação clínica tradicional, especialmente na tradição psicanalítica, sempre se reconheceu que o psicólogo também precisa de espaços de cuidado e elaboração de sua prática.


Entre os dispositivos fundamentais para a sustentação do trabalho clínico estão:

Supervisão clínica


A supervisão permite que o psicólogo discuta casos, impasses técnicos e dificuldades emocionais associadas ao atendimento. Além de ampliar a compreensão clínica, ela também protege o profissional do isolamento.


Análise pessoal

A análise do próprio psicólogo é um elemento central da formação em muitas abordagens clínicas. Ela permite que o profissional elabore aquilo que a prática mobiliza em sua própria subjetividade.


Formação continuada

Estudar a clínica, participar de grupos de estudo e manter contato com outros profissionais ajuda a sustentar o desejo de trabalhar com a escuta do sofrimento humano.


O início da carreira: quando a exaustão encontra a insegurança

Na supervisão clínica com psicólogos em início de carreira, é comum encontrar uma combinação delicada de fatores:

  • intensa implicação com o sofrimento dos pacientes

  • insegurança sobre decisões clínicas

  • dificuldade em estabelecer limites na agenda

  • sensação de responsabilidade excessiva pelo tratamento

Sem espaços de troca e reflexão, muitos profissionais jovens acabam vivendo a clínica de forma solitária.

Esse cenário pode aumentar o risco de desgaste emocional precoce e até abandono da profissão.


Cuidar de quem cuida também é cuidar da saúde mental coletiva

Se o cuidado psicológico é hoje reconhecido como essencial para a sociedade, torna-se igualmente necessário refletir sobre as condições de trabalho e sustentação dos profissionais da saúde mental.


A qualidade do cuidado oferecido aos pacientes está diretamente relacionada às condições psíquicas e institucionais daqueles que exercem esse trabalho.


Supervisão, formação e espaços de elaboração da prática não são apenas recursos pedagógicos. Eles são também estratégias fundamentais de prevenção do adoecimento profissional.


Em um contexto de crescente demanda por saúde mental, cuidar de quem cuida deixa de ser apenas uma preocupação individual e passa a ser uma responsabilidade ética e

institucional da própria área da saúde.


Referências bibliográficas

  • Bykov, Y. M., et al. (2022). Burnout among psychiatrists: A systematic review and meta-analysis.

  • McCormack, H., et al. (2018). Burnout in mental health professionals: A systematic review.

  • Morse, G., et al. (2012). Burnout in mental health services: A review of the problem and its remediation.

  • O’Connor, K., et al. (2018). Burnout in mental health professionals: A systematic review and meta-analysis.

  • Simionato, G., & Simpson, S. (2018). Personal risk factors associated with burnout among psychotherapists.

  • World Health Organization. (2019). Burn-out an occupational phenomenon: International Classification of Diseases (ICD-11).


 
 
 

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